
Aproximadamente 25,807
Julho 22, 2006A minha atenção foi desviada da tarefa importante que me tinha incumbido de levar a cabo neste dia quente de sábado, para um artigo na Wikipedia sobre um documentário da autoria do Professor Richard Dawkins e a que foi dado o título televisivo de “A Raíz de todo o Mal“. E não é de espantar que tenha ficado chocado que pessoas tão inteligentes e científicas continuem a encontrar explicações tão prosaicas para as razões que levam seres humanos a terem comportamentos maus, “demoníacos” mesmo.
É verdade que o documentário se concentra na religião católica, não sei se por alguma razão em particular, mas, mesmo tendo-lhe sido sujeito, não o considero relevante para a discussão em causa. Fala-se em educação sectária, traumas causados por imagens assustadoras usadas pelo educadores, de toda a loucura da moralidade bíblica do antigo e do novo testamento. Mas a minha preferida é a moralidade secular e o papel disruptivo que a religião introduz na moralidade inerente à evolução biológica, à moralidade primordial existente, por exemplo entre os chimpanzés. Confesso a minha confusão e ignorância sobre todos estes temas, mas é-me difícil compreender que nos consideremos “racionais” e “civilizados” e encontremos as bases da nossa racionalidade e moralidade nesses outros seres, claramente inferiores (segundo nós, é claro).
Mas no fim das contas, é a isto que tudo se resume, não é uma questão de religião, de simpatia clubística, orientação sexual, afiliação política ou tipo alimentação mas sim, da imensa presunção que o ser humano foi adquirindo ao longo da evolução de que está acima de tudo, da natureza, dos animais e de tudo o resto que possa existir e que não demonstre o mesmo nível de inteligência ou racionalidade. Não devemos confundir as coisas com o que fazemos em nome delas. Pensemos por um instante para a raíz de quantos males contribui a ciência, a matemática, a física. Não, não faz sentido.
Concordo com o que li num livro de Alfredo Saramago, que diz que a religião, palavra oriunda do grego religio pode ser definida como a relação do Homem com o oculto e nisto de relações, cada um escolhe a que pretende ter e a intensidade com que as vai mantendo. Talvez os ateus não precisem desse tipo de relação. Talvez os fundamentalistas não consigam viver sem ela de forma intensa. Quando era criança ensinaram-me sobre Adão e Eva, o Paraíso e o pecado original, e até certa altura, parecia-me um bom ponto de partida. Mas depois ouvi falar do Darwin e das suas observações e teorias e isso fazia mais sentido. Isto fez mudar a minha relação com o oculto, ou seja, mudou a minha forma de ser religioso. E assim continua até hoje, numa evolução constante esta minha relação com o que não entendo.
Se tivesse hoje que definir a raíz do mal diria, sem grandes hesitações, mas com algum arredondamento, que será aproximadamente 25,81.
A palavra religião vem do latim “religio”, que vem de religare, ligar de novo.