Li há algum tempo atrás, um famoso relatório elaborado por académicos da Universidade de Aberdeen (se não me falha a memória) que procurava, basicamente, estabelecer o perfil dos gestores cá do burgo. E como é que se propuseram fazê-lo? Nada mais nada menos do que entrevistando gestores estrangeiros a trabalhar há vários anos em Portugal.
Não é que devamos acreditar em tudo o que os estrangeiros dizem sobre nós só porque são estrangeiros e nós adoramos dizer mal e concordar com quem diz mal. Mas os pontos focados nas principais conclusões não podem deixar ninguém indiferente. Pelo menos ninguém que dedique algum tempo à observação do que o rodei e a alguma reflexão sobre o tema.
As principais conclusões do dito estudo sobre os gestores portugueses eram as seguintes:
- são vaidosos, gostam de títulos e de exibir sinais exteriores de poder;
- são extremamente individualistas e não trabalham em equipa;
- são extraordinariamente capazes de resolver os problemas mais complexos e de sair bem das situações mais desesperadas;
- são óptimos no improviso.
A primeira destas conclusões é discutível no sentido em que não acredito que o sejam mais ou menos do que os de qualquer outro país do mundo. Sobre a segunda não me ocorre um contraditório credível. São-no realmente, apesar de passarem o tempo a dizer o contrário e pretensamente a tentarem instigar esse espírito nos seus colaboradores. No entanto, não me parece que seja motivo suficientemente forte para definir um mau gestor.
Os terceiro e quarto pontos parecem inapropriados para figurar uma lista de “pontos negativos”. E são, de facto, quando apresentados da forma isolada. E aqui é que vem o que considero ser a grande revelação, para mim pelo menos, é claro, deste estudo:
- são “especialistas” a criar situações complexas e problemas virtualmente irresolúveis simplesmente porque não possuem capacidade de ver um pouco à frente, de antecipar;
- são completamente aversos a qualquer tipo de preparação, de planeamento e análise prévia das situações e dos riscos nelas envolvidos.
Não é necessário ser profundamente humilde para perceber que não existe nada mais ao centro do alvo do que a ponta da flecha destas afirmações. Basta ser um pouco inteligente e observador. Isto não é má língua nem solidariedade com a má língua dos outros. É apenas uma oportunidade de mudar com base na observação dos que estão mais afastados do nosso problema que nós. Afastadas o suficiente para o perceberem e definirem com uma simplicidade embaraçosa.
Voltei a lembrar-me deste estudo por ter lido recentemente no Arrastão sobre a atitude incompreensível dos nossos empresários e que, goste-se ou não, acaba por deslizar pela pirâmide abaixo como exemplo negativo. Não é nova esta atitude e não tomei contacto com ela só agora, infelizmente. Há uns meses na SIC Notícias, o sr. Van Zeller dizia que não se podia estar à espera que os empresários portugueses corressem riscos.
Porque todos nós somos gestores de uma forma ou de outra, parece-me importante ter uma atitude mais activa na construção de soluções em vez da perseguição incessante de desculpas para a inércia e da atribuição de culpas a terceiros (invariavelmente o Estado).


