Arquivo de Outubro, 2006

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Dentro da rotina: percursos de Outono

Outubro 26, 2006

Estamos no Outono, estação do ano vista como triste e deprimida. Começam as àrvores a despir-se, caem as primeiras chuvas, em ano como este, os primeiros dilúvios, e o sol deixa-se ver mais esporadicamente. A luz é realmente importante. Mas não é tudo. Também há a intensidade. E os sons. E os cheiros. Tudo ao alcance da rotina diária, no regresso a casa pela rede pública de transportes.
Há espaços onde a luz natural intensa dos meses de Primavera e Verão não penetra. Um desses espaço, o metropolitano, não tem particular encanto no Verão ou na Primavera. No entanto, recomendo um percurso curto para experimentar uma atmosféra única que só seria melhor se a luminosidade artificial fosse um pouco menos intensa nos átrios das estações. Lamentavelmente, tem que se garantir a segurança e tal não é possível.

O percurso de que falo começa pelo acesso sul, através da Estação de Comboios, à estação de metro de Entrecampos, ao entardecer. A luz artificial da gare é pouco intensa e é ainda aproveitada a luz natural que entra pelas paredes envidraçadas. Ao descer um nível em direcção à estação de metro, existe uma sonora cascata ornamentada com o que me parece ser o som artificial de um grilo. É fascinante a forma como estes dois elementos em conjunto me fazem alhear das multidões enormes que a essa hora saem do metro, e enchem o longo corredor em direcção à rua ou apressadas para apanhar os comboio dois andares acima.

A estação de saída é a do Rato. O átrio da estação é enorme e tem uma luz artificial demasiado intensa. Mas nestes fins de tarde de Outono, esta luminosidade é geralmente abafada pelo que, inicialmente, aparenta ser uma estranha neblina. Subindo ao andar de cima e saindo em direcção à saída da R. do Salitre, a luz artificial diminui e a nelina transforma-se em nevoeiro. O pouco iluminado, longo e inclinado túnel que dá acesso ao exterior através de uma escada rolante, serve como catalisador do que resta da luz natural do dia e trata de acompanhar o nevoeiro, aqui já mais intenso, explicando-o, primeiro de forma indirecta através do cheiro e, no final, mesmo à saída, de forma visual, com a presença de um assador de castanhas ambulante que tem poiso praticamente fixo por ali nesta altura do ano.

O sol não brilha o ano todo em Lisboa, mas a cidade é brilhante em qualquer estação do ano e até mesmo em boa parte das estações do metro.

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Correio prioritário

Outubro 25, 2006

Hoje não há nada para dizer. Continuam-se a evitar oportunidades, a descartar possibilidades porque simplesmente, não é o momento certo.

Hoje cumpriu-se mais um dia sem história, um dia de fachada social. Um dia em que os momentos solitários foram apressados sempre que não foi possível evitá-los de todo. Um dia em que este momentos algumas vezes aconteceram no meio de uma multidão. O que seria necessário para estabelecer uma ligação com esta gente toda? Com apenas uma dessas pessoas?

Hoje tive saudades da promessa por cumprir em Nova Iorque, fez-me falta o sonho que tive em S. Paulo, os dias húmidos de Porto Seguro.

Hoje preciso voltar a encontrar um cartão postal com vida. E endereçá-lo à minha vida.

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… e já está a dever mais 25%

Outubro 25, 2006

O novo presidente do Supremo Tribunal de Justiça ousou chamar de “lixo processual que tudo entope(…)” aos mais de 50% dos processos de crédito mal parado que tolhem o andamento da nossa justiça, ou melhor, do nosso sistema judicial.

Foi mais além e afirmou que é preciso combater o problema “(…) montante deles e regulando o comportamentos dos agentes no mercado de concessão do crédito ao consumo(…)”.

Não concordo que a culpa de os cidadãos se endividarem seja das instituições de crédito ao consumo, cada um deve ser responsabilizado pelos seus actos e principalmente, pela sua incúria na gestão das suas contas correntes, mas concordo que a actividade destes “ligue que nós depositamos na sua conta e já está” devia ser investigada e regularizada. Bastava que ficasse clara a taxa de juros a pagar, em letras do mesmo tamanho que o resto do anúncio.

Não conheço Noronha do Nascimento, mas demonstra coragem. Provavelmente a coragem que lhe valerá ter, caso passe da palavra à acção, algum assunto da sua vida pessoal transformado em chamariz de escaparate pela impressa de penhores. Já aconteceu a tantos antes dele. Espero que isto não aconteça e espero que consiga fazer alguma coisa para melhorar a situação e trazer a justiça de volta. Afinal, metade do problema está identificado.

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“Controlar” as rotundas

Outubro 24, 2006

Sente-se no ar uma tensão social crescente com as sucessivas medidas de rigor impostas pelo actual governo. Cada dia há mais anúncios de greves, ora contra os valores magros dos aumentos, ora pela perspectiva iminente de perda do posto de trabalho. Seguramente se seguirão muitos protesto, muitas manifestações.

Tendo crescido na província e lá vivido até tarde da minha adolescência, a minha atenção foi sendo desde cedo captada por todos estes problemas e dificuldades da gente do país real, da minha gente. Uma outra coisa, menos cinzenta e mais lúdica que sempre me atraíu foi a forma como certas palavras ou expressões eram, e continuam ainda a ser, usadas de forma não totalmente correcta… digamos assim. Sem dúvida uma das minhas preferidas de todos os tempos, usada sempre que um forasteiro parava a pedir auxílio com o mapa das estradas, é a do “segue sempre em frente e depois ‘controla’ a rotunda…”.

Mas a que propósito surgem estes dois temas completamente desconexos num mesmo post? A única coisa que os liga é de origem estritamente egoísta: o meu ódio visceral por rotundas. As rotundas representam, nada mais nada menos, todas as decisões tomadas sexta-feira a meio da tarde no que diz respeito ao desenho da estrada. Cada rotunda é uma afirmação categórica de indiferença do seu responsável para com os futuros utentes da via: “não sei como vou resolver este nó de estradas e também não quero saber; coloco uma rotunda e quem quiser que se desenrasque… já estou atrasado para o fim de semana na serra.”. E pronto, mais uma rotunda.

Quem teve recentemente de tirar a carta conhece perfeitamente a confusão reinante entre legisladores, instrutores e examinadores quando o tema é a circulação nas rotundas. Existem alguns que ainda tentam demonstrar que existem realmente regras, mas quando bem argumentadas, estas discussões terminam sempre com a mesma regra única: façam o que estiver ao vosso alcance para sair da rotunda sem se envolverem em nenhum acidente, usando todos os mecanismos, mecânicos e comportamentais, à vossa disposição.

Ontem à noite, imediatamente antes de adormecer, tive uma revelação, um momento de clarividência, uma visão. É geralmente neste momento do dia que tenho as maiores ideias, algumas que me recordo serem geniais, mas a maior parte das quais se perdem depois durante o sono para lá de qualquer possível recuperação. A minha visão foi uma forma de juntar o úitl o inevitável.

O inevitável é a contestação social que se avizinha e sua manifestação nas ruas. Útil seria cortar estradas legalmente. Mais útil ainda seria, final e literalmente, “controlar” as rotundas e, quem sabe, porque sonhar ainda não paga IVA, fazer com que se acaba com elas de vez. A resposta está nas leis e nos factos sobre as estradas portuguesas:

  • é ilegal cortar estradas;
  • nas rotundas, tem prioridade quem já nelas circula sobre os que pretendem entrar
  • nada é referido sobre limite do número de voltas que se pode dar uma vez dentro da rotunda;
  • em qualquer estrada existe uma rotunda, mais cá ou mais lá; na maioria dos casos, existema mais cá e outra mais lá, é escolher.

Não quero ser acusado de incitar à desordem social, por isso não digo mais nada, os factos são estes. Lembrem-se dos vossos documentos e dos da viatura e se conduzirem, não bebam, mesmo que seja muito devagar em rotundas.

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Cenários II: coberturas e cerejas

Outubro 23, 2006

De acordo com um estudo da GSMA, noticía a SIC, lá para 2010, 95% da população mundial terá cobertura GSM, ou seja, 95% da população do planeta azul pode usar um telemóvel para comunicar.

E se, por essa altura, a mesma percentagem da população vivesse acima do limiar extremo de probreza (subsistir com $1/dia)? E se a mesma percentagem da população tivesse condições para realmente poder usufruir dessa cobertura GSM?

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Cenários I

Outubro 21, 2006

Em menos de dois meses vi dois filmes em que a primeira dama dos Estados Unidos, esposa de um presidente mais muito apreciado em ambos os casos, vê a sua respeitabilidade colocada em causa. No primeiro filme atavés de um caso romântico com o seu chefe de segurança; no segundo caso porque manda assassinar o marido por motivos passionais.

Tivemos a famosa séria 24 que se pode ver como uma forma de a direita conservadora “iluminar” as massas para as necessidades de torcer tudo o que são normas do estado de direito e direitos dos cidadãos para apanhar os terroristas. Jack Bauer não olha a meios para nos proteger da ameaça constante.

Depois a resposta dos liberais de esquerda, com a série Commander in Chief, em que retratam um mundo com uma mulher presidente dos Estados Unidos, e que, dizem as más línguas, é a preparação do subconsciente colectivo para a eleição da Srª Clinton em 2008. Geena Davis é uma mulher “tesa” e não se deixa intimidar num mundo de homens e armadilhas.

Será que os filmes que agora retratam a primeira-dama de forma menos que imaculada, infiel ou traída vingativa, mulher de presidente aplaudido pelo povo, mas com os problemas do costume (amante, por exemplo), são uma contra-ofensiva dos conservadores? Parece-me claro que, em ambos os casos, o presidente não pode ser Bush e logo, a primeira-dama em causa não pode ser Laura…

Achei por bem inaugurar uma nova série chamada “Cenários” e cujo tema principal será “E se?” Este parece-me um cenário hilariante ou, em português do continente americano, hilário.

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bcn: cinc

Outubro 21, 2006

Mais um dia de sol. Antes das 10h da manhã quase não se vê gente na rua, pelo menos nesta parte da cidade. A movida vai até tarde e não há milagres madrugadores. Pequeno almoço de café com leite, dunkin donut de chocolat blanco seguido de um sumo natural e fresquinho de abacaxi no Mercat La Boqueria. Calorias e vitaminas para enfrentar a serra.

O destino do dia é Montserrat e não não sei a que horas deveria estar na Plaça d’Espanya, mas não há pressas. Chego a tempo de me decidir pelo bilhete combinado mais adequado e partir de comboio após breve espera de 10 minutos. Não é fácil a decisão, mas opto pelo que inclui os funiculares em detrimento do aeri (teleférico). O museu do Monestir de Montserrat fica também de fora, hoje vou fazer trekking que, em bom português, quer dizer caminhada pela serra.

A viagem começa de comboio e à medida que vou subindo a temperatura vem na direcção oposta. 5º a menos é o balanço final em relação ao ponto de partida. Chegado a um povoado na base da serra, é altura de trocar de transporte para uma outra coisa que é… um comboio. Diz Cremallera nas carruagens. Leva-me até ao mosteiro e o que é conhecido por este nome de Cremallera é a própria serra devido à forma dos rochedos que a constituem.

Já no mosteiro, após uma subida de uns 600m em relação ao nível do mar, são dedicados 10 minutos inteirinhos e percorrer uma versão catalã do Santuário de Fátima e ja esta.

Segue-se o funicular para Santa Cova, que desce até ao início de um percurso que inclui os 15 passos do rosário, com 15 esculturas da autoria de diversos artistas espanhóis, percurso este que termina no local em que, alegadamente, foi encontrada a imagem da Srª de Montserrat após longo período de desaparecimento. É uma viagem dispensável, mas já que aqui estou… a minha mãe vai ficar orgulhosa e vai poder contar às suas amigas.

Os funiculares são sempre prometedores, são pequenas carruagens, sobre carris, presas e puxadas por cabos, e que servem para vencer inclinações que só a natureza poderia conceber. Mas estes funiculares de Montserrat dão uma nova inclinação ao conceito. O funicular de Sant Juan, que me leva dos setecentos e poucos metros até aos 970m, vence uma inclinação anunciada de 65% durante cerca de 300m, ou seja, números redondos e aproximados, faz-me subir quase 200m em relação ao mar. Estes sistemas baseiam-se num mecanismo tipo roldana, com duas composições presas por um cabo. Uma sobe e a outra desce, cruzando-se a meio do percurso no único sítio em que a linha se divide em duas. Não há qualquer perigo. A menos que o cabo se parta, o equilíbrio é perfeito, e o cabo parece-me robusto. Para quem gosta de pensar noutras possibilidades desaconselha-se a entrada no transporte.
Lá em cima sim, a viagem fica paga com três percursos à escolha: um de 20min e outro de 60min em direcção a norte, contornando por lados opostos a montanha; e um para sul do qual percorri apenas alguns metros até uma boa localização fotográfica. Lá no alto, quais miniaturas coloridas, podem ver-se grupos de escalada a conquistarem as rochas do cume.

A vista é asfixiante em todas as direcções e o ar é fresco. Quando chego ao topo, atiro-me para o chão na esperança de recuperar algum dos pulmões que me saltam pela boca aberta, por nenhum outro motivo que não seja o da contemplação e espanto provocados pela imensidão da paisagem. Claro.
Alguns minutos depois já consigo mudar-me de posição, ainda deitado, para poder mais do que o céu azul que me serve de lençol. Reparo, a nordeste, numa crista branca sobre uma barra avermelhada e um fundo cinza azulado: a neve dos Pirinéus consegue destacar-se sobre o smog oriundo certamente da capital catalã e zonas industriais adjacentes. Não dá uma boa foto, mas é um bom motivo para aproveitar a posição. Certifico-me que pelo menos um dos pulmões voltou ao funcinamento normal e o que o coração já não tenta furar o peito.

O silêncio aqui é quase absoluto, apenas interrompido a espaços e por breves momentos, por vozes em diversos idiomas. São poucos os que aqui sobem e são menos ainda os que conseguem interromper o silêncio depois de o fazerem.

A descida começa não sei quanto tempo depois e é feita de forma mais lenta, com paragens fotográficas aqui e ali. Mal posso esperar pela descida de funicular quase a fazer o pino enconsta abaixo. E é essa emoção que praticamente encerra o dia na serra, já qua viagem de regresso é feita a dormir. O cansaço da caminhada e o suave balanço dos vários transportes ferroviários utilizados tratam de me embalar para num sono delicioso.

Já de volta Plaça de Catalunya, resolvo subir até ao Poble Espanyol, uma aldeia construída para a Exposição Internacional de 1929 com mais de 100 edifícios ilustrativos da diversidade arquitectónica espanhola. As visitas a locais pagos já estavam fora do meu mapa mental desde ontem, mas só na bilheteira o percebi.

Atravesso o bairro calmo e agradável de Poble Sec até desaguar em novo mar de gente na Plaça de Catalunya e arredores. Procuro novo restaurante tipo aquário para me refugiar a degustar uma refeição calma e vou tropeçando em diversas animações de rua, desde o break dance na Av. Portal del Angel ao tango e danças sincronizadas em círculo na praça da catedral. O único aquário que encontro digno do nome e já com provas dadas é o do dia anterior. A garrafa de cavas fresca chama por mim e eu vou.

Amanhã, domingo, é dia de despedida e vou fazê-lo como gosto, pela manhã, com a cidade ainda a dormir e com os poucos que estão acordados a dirigirem-se ensonados e com saudades, para o aeoroporto. É assim que eu irei estar. À espera do regresso.

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Estado de direito: cada vez mais longe

Outubro 20, 2006

Parece que está a chegar ao fim o julgamento do conhecido caso Entre-Os-Rios.

Resumo a seguir a minha percepção sobre todo este processo. Está a terminar, cinco anos após o trágico acontecimento que vitimou 59 pessoas, um julgamento que vai condenar, aparentemente, um conjunto de técnicos que terão sido os únicos a não ter a inteligência suficiente para ficarem calados num dado momento do tempo. Como já são pessoas a caminhar para a idade, não se pede que cumpram penas de prisão efectiva.

E justiça, onde está?

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bcn: quatre (divendres tretze)

Outubro 19, 2006

Lá fora está uma temperatura agradável e o dia nasce com sol. Cá dentro não há água quente por causa de uma avaria no gás ou não sei o quê. Resigno-me à indiferença espanhola coroada com a oferta de um WC comum no rés-do-chão que parece que tem água quente, e decido tomar banho de água fria. Começa sexta-feira 13.

O dia de hoje é para levar muito devagar e visitar locais menos centrais, procurando evitar um qualquer piano em voo a partir de uma janela da cidade. Distâncias maiores, maior necessidade de transportes públicos, tempos de intervalo mais adequados às dores musculares.

Tinha apontado para um pequeno-almoço fresco e saudável no Mercat La Boqueria, mas o bulício e a mistura de cheiros levaram a melhor sobre a intenção. Isso e três tipos sentados à volta de uma mesa alta a comerem algo frito para lá de qualquer possibilidade de identificação e a beberem vinho tinto. São 9:45h da manhã. Tomo um café com leite e como um mini-bocadillo e sigo para Les Corts. Destino: Camp Nou, casa do FC Barcelona.

Tal como já tinha acontecido ontem na Fundació Juan Miró, esqueço-me de usar o meu cartãozinho de desconto na aquisição da entrada. O estádio é realmente imponente, porém, nem o tour nem o tão famoso museu estão à altura da grandeza do clube. Custa acreditar que é um dos museus mais visitados do mundo com mais de um milhão de visitantes anuais. <biqueirada> A visita ao Santiago Bernabeu em Madrid, mais barata, fica classificada vários furos acima. Deixo entre os adeptos dos dois arqui-rivais a discussão de qual é o maior dos clubes </biqueirada>.

Até ao Monestir de Pedralbes, passa-se pelo Palau Reial, Pavellon Finca Guëll e Ciutat Universitaria. O caminho é mais longo de que o inicialmente previsto e com uma inclinação moderadamente desfavorável. A visita ao mosteiro é agradável e permite um sereno descanso debaixo dos claustros que se encarregam de filtrar a luz da forma certa.

Para a estação mais próxima do FGC mais próxima é mais uma pernada. Preciso comprar um T-10 que o outro já acabou em Camp Nou. Peço indicações ao segurança da estação que, pela disponibilidade e simpatia deduzo ser galego. Não me atrevo, no entanto, a perguntar e a estragar a raridade do momento. Mas atenção, quando falo em simpatia continua a ser sem qualquer tipo de sorriso ou algo similar. Em espanha poupam-se os músculos a este tipo de esforços desnecessários.

No entanto, indica-me o caminho turístico para Tibidabo e sugere uma alternativa mais rápida. Agradeço, mas hoje estou numa de turismo de rebanho e não consegui sequer perceber toda a complexidade do percurso alternativo. E também porque tudo o que tinha lido apontava para uma viagem pitoresca num tram (tipo eléctrico de Lisboa) e seguida de mais um funicular.

Afinal o T-10 não serve para estes transportes e o custo das passagens faz concluir que quem anda em rebanho ou é pastor ou é ovelha. Não sei se foi só na minha cabeça, mas lembro-me de ter começado a balir.

Lá em cima, o parque de diversões para os miúdos e uma vista extraordinária sobre a cidade estendida até ao mar na sua geométrica arrumação. Pena foi que as nuvens tenham decido acabar com a luz que permitiria uma boa foto. Atrás, à distância de uma escadaria, uma imitação muito reles do Sacrè Coeur de Monmartre. Em catalão, este chama-se Sagrat Cor e nada mais há a dizer sobre ele, a não ser que realmente parece muito mais bonito quando mal se vê lá de baixo da cidade.

Próxima paragem: Parc Guëll. Decido a favor da estação de metro de Vallarca em detrimento da de Lesseps e revela-se uma decisão acertada: são 400m até ao parque com uma inclinação insana, mas com escadas rolantes em mais de três quartos do trajecto. Mais umas vistas panorâmicas sobre a cidade, desta feita já sob a luz directa do sol, e descida até ao centro do parque para apreciar mais um exercício da criatividade de Guadì. Demasiada gente prejudica a qualidade da visita.

Para não subir os 100m que me levariam de volta pelo mesmo caminho saio pela porta princiapl em direcção a Lesseps: 1200m de pura estupidez. Pura porque a distância estava assinalada logo à saída e pelo caminho fora em suaves decrementos. Distraio-me com uma italiana bellssima a maior parte do caminho, mas os olhos não enganam as pernas durante muito tempo.

Quando cheguei ao Passeig de Gràcia co a cândida intenção de apreciar mais algumas obras da arquitectura modernista espalhados pela zona, só me apetecia sentar num banco e esperar pela assistência para trocar de pés. O Gonçalo Cadilhe, no seu livro Planisfério Pessoal, descreve um dos passatempos preferidos dos Neozelandeses, o tramping, que traduzido literalmente para português seria algo como “calcando terra”, o equivalente ao espanhol senderismo. É o que tenho andado a fazer de forma incessante nos últimos quatro dias, sobre o asfalto que, segundo o meu professor de ginástica do 9º ano, é muito pior para joelhos e pés.

Lá me arrasto até à praça base, a de Catalunya, e o cenário é o oposto do dia anterior. Na Avinguda Portal del’Angel, só se vêem cabeças em movimento, coladas umas às outras, nas Ramblas ao lado a mesma imagem de uma multidão diferente. Consigo romper até um restaurante chamado La Poma. São 6h da tarde e vou almoçar.

O restaurante é perfeito. Espaçoso, quase silencioso e com vidro a toda a volta. Escolho uma mesa com vista para a rua. A sensação é a mais próxima que consigo imaginar à de um peixe dentro de um aquário em dia de festa na sala. Vista dali, a multidão move-se freneticamente, mas de forma tão silenciosa que o movimento não é perturbado pelo ruído. Se estivesse mais próximo da janela, tentaria umas bocas de peixe para ver se alguém parava para ver. Duas horas, uma Poma (bife de vitela frito em pão, arroz, batata e ovo) e uma garrafa de cavas de Penedes depois, ainda me custou imenso enfrentar a rua, mas a distância até um caffé mocca blanc quentinho era curta e valeria o esforço.

Duas estações de metros até Port Vell para apanhar ar fresco do mar e afastar-me da confusão humana. No regresso, o problema da água quente já tinha sido resolvido e o dia termina de forma gloriosa ao som de uma voz italiana.

Sexta-feira 13 é, decididamente, um mito urbano.

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bcn: tres

Outubro 18, 2006

Desde a meia noite que chove a cântaros e a cidade está iluminada pelos relâmpagos de uma trovoada que até nem parece ser muito próxima. Apesar do sono, parece-me que a tempestade terá acalmado lá para as 6h da manhã.

Consigo levantar-me mais cedo do que ontem e uma análise rápida pela janela leva-me a crer que o pior já lá vai. O ar matinal nas Ramblas é fresco e agradável.

Forço praticamente a entrada para o pequeno almoço de chocolate com churros. Apesar de ainda decorrerem os preparativos para o dia, vão chegando outros madrugadores. À terceira foi vez. O dia promete. Parece haver pouca gente na rua e acho estranho o Mercat La Boqueira estar ainda fechado. Ainda em modo olhar sem ver, sigo o plano estabelecido no dia anterior: visita ao Palau de la Música Catalana. Chego bem antes das 10h e a primeira visita guiada em inglês já está esgotada. Opto pela segunda, guiada em catalão para meia-hora depois. Ainda há tempo para uma pequena caminhada matinal até ao Arc de Triomf, com a sua ampla alameda de candeeiros e palmeiras. Há realmente pouca gente nas ruas e recordo o trânsito quase inexistente quando atravessei a Via Laietana pouco tempo antes.

A visita ao Palau começa com um pequeno filme sobre as suas origens, fundadores e história, após o qual avançamos para a sala da plateia e do palco. Sabe a pouco e parece muito menor do que prometiam as fotografias. As explicações sucedem-se na língua catalã que descubro ser muito fácil de compreender, apesar das dificuldades que tenho sentido até então para me fazer entender com algumas palavras que resolvi estudar afincadamente. A visita é guiada de forma objectiva e focada, de forma espanhola, sem desvios desnecessários nem tentativas de humor inúteis.

O conceito principal subjacente à obra era o de um grande jardim de música: os seus motivos florais, a evocação de estilos variados de música desde a folclórica catalã, passando pela clássica até à moderna, e uma captura da iluminação natural por todas as formas permitidas pela criatividade e pela tecnologia da altura (início do sèc. XX), comprovam-no inquestionavelmente. Difícil continua, no entanto, acreditar que a sala comporta cerca de 2100 pessoas. Mas qualquer dúvida é esclarecida quando subimos ao balcão, no andar superior. As promessas são entregues ao som de uma pequena demonstração de orgão.

Do Passeig de Grácia separa-me uma estação de metro. A fila para entrar na Casa Batlló é curta, mas a chuva resolve voltar a incomodar. O preço da entrada também, mesmo com os 10% de desconto oferecidos por uns cartõezinhos que tinha visto na noite anterior na entrada do hostal.

Gaudì arquitecto foi de facto um génio, e eu não gostaria de ter estado na pele dos construtores que deram vida às suas criações arquitectónicas. A visitia foi pausada porque os pormenores que ìam sendo destilados pelo audio-guia eram grandes em quantidade e qualidade.

Já na fila para a Casa Milá, um pouco mais a norte, um sinal avisa-me que vou esperar meia hora para entrar. Nem um terço disso depois já estou protegido da chuva a apreciar mais uma criação Gaudiana. A inspiração na natureza e a importância dada à iluminação natural e à circulação do ar são marcas constantes na obra do arquitecto e são particularmente notórias neste bloco de apartamentos onde as únicas divisões sem penetração solar, eram os quartos das empregadas nos apartmanetos que os tinham. No sotão é possível ver a forma genialmente simples e vice-versa, como Gaudì estudou as estruturas em arco que tanto utilizou nas suas construções e nesta em particular no andar cimeiro, onde fica a área de serviço que era partilhada não só pelos inquilinos do bloco, mas também pela vizinhança. No fim, o terraço com as suas chaminés de formas arredondadas e cobertas com vidro. Estes são daqueles locais que devem ser realmente visitados e apreciados ao vivo e a cores. Descrições há muitas por aí mas nada que possa ser suficientemente claro e descritivo a ponto de substituir a visita.

Depois de uma refeição ligeiríssima, decido que não seria justo obliterar La Sagrada Família do mapa da viagem. Engano gótico, tal como já previsto no dia anterior. Trata-se na verdade de um estaleiro de obras envolvendo gruas, estranhas esculturas e temas religiosos. O preço exorbitante da entrada isenta-nos, porém, de colaborar no esforço da construção. De forma directa, entenda-se. Procuro rapidamente uma porta de saída e escolho precisamente aquela que tem a ladeá-la duas esculturas bastante destacadas de, nada mais nada menos, um sapo e um camaleão. Pelo meio, umas quantas figuras de santos, é claro. Só comparável aos caracóis (moluscos é do que falo) que aparecem em tamanho de destaque na parede do lado oposto. Gaudì, o “escultor” deixa-me indisposto, mas determinado a não confundir isto com a sua obra arquitectónica. Talvel regresse quando estiver terminada, se ainda for vivo.

Cá fora, a chuva londrina impede-me de passear pela Grácia e de visitar o Parc Guël. Fica para depois, quando houver sol. Adaptar a evolução do trajecto às condições climatéricas faz parte da obrigação “darwiniana” do viajante, particularmente no outouno: nos inevitáveis dias de aguaceiro, visitam-se os interiores. Dando continuidade a esta ideia, sigo para a Fundació Juan Miró. Entre a saída do funicular e o edifício faz-me falta um guarda-chuva.

Escolho a fila dos olhos verdes lamentando que tenha apenas ter 3 pessoas. Preparo o meu melhor sorriso e digo que desta vez cheguei a tempo. Ela é espanhola e eu não tenho olhos claros.

Miró faz-me apreciar as cores fortes e ao fim de algum tempo dou comigo a tentar adivinhar as formas antes de ler os nomes nos letreiros. Divirto-me com o exercício. Miró, como Picasso e poucos mais, tornaram mais estimulante abdicar da minha habitual postura preguiçosa face à arte. Encontro um candidato a ocupar um lugar na minha futura casa. É descrito como “Dona e Orcell” (Mulher e pássaro) mas a minha interpretação é outra e foi a que me atraíu inicialmente.

O dia ainda está longe de terminar, mas o cansaço e a chuva levam-me em direcção à Plaça de Catalunya. Vou evitar algumas compras para a FNAC ou para o El Corte Inglés. Antes disso resolvo entrar num posto turístico subterrâneo para procurar um mapa de estradas dos arredores de Barcelona. A moça diz-me que só tem da Costa Brava, talvez na FNAC, mas que deve estar fechada. Pergunto no meu melhor catalão «Closed, why? It’s Thursday!». «Bank Holiday», responde-me sem aviso prévio. Já me cruzei com estes famosos dias em Londres e Buenos Aires, mas foi em datas próximas de fim de ano, sem surpresas. A meio de Outubro só mesmo em Espanha… perdão, na Catalunha.

Vencido pela realidade e com as pernas muito doridas, desço a Av. Portal del Angel, onde passo ao lado de uma feira de artesanato, em direcção a um waffle coberto com leite condensado com que me cruzei numa esquina em pelo Barri Gótic. É uma boa altura para descansar para o jantar.

Ao chegar ao hostal recordo-me vagamente de no dia em que cheguei me terem dito que iria mudar de quarto não sei quando e não sei porquê. Esta memória só emerge forçada pelo aparato de roupa juvenil feminina espalhada em cima da cama. Podia ter sido pior. Mais uma descoberta logo a seguir: em espanha o penúltimo nome é que é importante, o que torna mais interessante a procura no registo, do número da minha nova habitacion. Por fim, uma cama igualmente confortável era tudo o que precisava para descansar antes da janta e do passeio nocturno. Sexta-feria 13 é só amanhã. Mal posso esperar.