Desde a meia noite que chove a cântaros e a cidade está iluminada pelos relâmpagos de uma trovoada que até nem parece ser muito próxima. Apesar do sono, parece-me que a tempestade terá acalmado lá para as 6h da manhã.
Consigo levantar-me mais cedo do que ontem e uma análise rápida pela janela leva-me a crer que o pior já lá vai. O ar matinal nas Ramblas é fresco e agradável.
Forço praticamente a entrada para o pequeno almoço de chocolate com churros. Apesar de ainda decorrerem os preparativos para o dia, vão chegando outros madrugadores. À terceira foi vez. O dia promete. Parece haver pouca gente na rua e acho estranho o Mercat La Boqueira estar ainda fechado. Ainda em modo olhar sem ver, sigo o plano estabelecido no dia anterior: visita ao Palau de la Música Catalana. Chego bem antes das 10h e a primeira visita guiada em inglês já está esgotada. Opto pela segunda, guiada em catalão para meia-hora depois. Ainda há tempo para uma pequena caminhada matinal até ao Arc de Triomf, com a sua ampla alameda de candeeiros e palmeiras. Há realmente pouca gente nas ruas e recordo o trânsito quase inexistente quando atravessei a Via Laietana pouco tempo antes.
A visita ao Palau começa com um pequeno filme sobre as suas origens, fundadores e história, após o qual avançamos para a sala da plateia e do palco. Sabe a pouco e parece muito menor do que prometiam as fotografias. As explicações sucedem-se na língua catalã que descubro ser muito fácil de compreender, apesar das dificuldades que tenho sentido até então para me fazer entender com algumas palavras que resolvi estudar afincadamente. A visita é guiada de forma objectiva e focada, de forma espanhola, sem desvios desnecessários nem tentativas de humor inúteis.
O conceito principal subjacente à obra era o de um grande jardim de música: os seus motivos florais, a evocação de estilos variados de música desde a folclórica catalã, passando pela clássica até à moderna, e uma captura da iluminação natural por todas as formas permitidas pela criatividade e pela tecnologia da altura (início do sèc. XX), comprovam-no inquestionavelmente. Difícil continua, no entanto, acreditar que a sala comporta cerca de 2100 pessoas. Mas qualquer dúvida é esclarecida quando subimos ao balcão, no andar superior. As promessas são entregues ao som de uma pequena demonstração de orgão.
Do Passeig de Grácia separa-me uma estação de metro. A fila para entrar na Casa Batlló é curta, mas a chuva resolve voltar a incomodar. O preço da entrada também, mesmo com os 10% de desconto oferecidos por uns cartõezinhos que tinha visto na noite anterior na entrada do hostal.
Gaudì arquitecto foi de facto um génio, e eu não gostaria de ter estado na pele dos construtores que deram vida às suas criações arquitectónicas. A visitia foi pausada porque os pormenores que ìam sendo destilados pelo audio-guia eram grandes em quantidade e qualidade.
Já na fila para a Casa Milá, um pouco mais a norte, um sinal avisa-me que vou esperar meia hora para entrar. Nem um terço disso depois já estou protegido da chuva a apreciar mais uma criação Gaudiana. A inspiração na natureza e a importância dada à iluminação natural e à circulação do ar são marcas constantes na obra do arquitecto e são particularmente notórias neste bloco de apartamentos onde as únicas divisões sem penetração solar, eram os quartos das empregadas nos apartmanetos que os tinham. No sotão é possível ver a forma genialmente simples e vice-versa, como Gaudì estudou as estruturas em arco que tanto utilizou nas suas construções e nesta em particular no andar cimeiro, onde fica a área de serviço que era partilhada não só pelos inquilinos do bloco, mas também pela vizinhança. No fim, o terraço com as suas chaminés de formas arredondadas e cobertas com vidro. Estes são daqueles locais que devem ser realmente visitados e apreciados ao vivo e a cores. Descrições há muitas por aí mas nada que possa ser suficientemente claro e descritivo a ponto de substituir a visita.
Depois de uma refeição ligeiríssima, decido que não seria justo obliterar La Sagrada Família do mapa da viagem. Engano gótico, tal como já previsto no dia anterior. Trata-se na verdade de um estaleiro de obras envolvendo gruas, estranhas esculturas e temas religiosos. O preço exorbitante da entrada isenta-nos, porém, de colaborar no esforço da construção. De forma directa, entenda-se. Procuro rapidamente uma porta de saída e escolho precisamente aquela que tem a ladeá-la duas esculturas bastante destacadas de, nada mais nada menos, um sapo e um camaleão. Pelo meio, umas quantas figuras de santos, é claro. Só comparável aos caracóis (moluscos é do que falo) que aparecem em tamanho de destaque na parede do lado oposto. Gaudì, o “escultor” deixa-me indisposto, mas determinado a não confundir isto com a sua obra arquitectónica. Talvel regresse quando estiver terminada, se ainda for vivo.
Cá fora, a chuva londrina impede-me de passear pela Grácia e de visitar o Parc Guël. Fica para depois, quando houver sol. Adaptar a evolução do trajecto às condições climatéricas faz parte da obrigação “darwiniana” do viajante, particularmente no outouno: nos inevitáveis dias de aguaceiro, visitam-se os interiores. Dando continuidade a esta ideia, sigo para a Fundació Juan Miró. Entre a saída do funicular e o edifício faz-me falta um guarda-chuva.
Escolho a fila dos olhos verdes lamentando que tenha apenas ter 3 pessoas. Preparo o meu melhor sorriso e digo que desta vez cheguei a tempo. Ela é espanhola e eu não tenho olhos claros.
Miró faz-me apreciar as cores fortes e ao fim de algum tempo dou comigo a tentar adivinhar as formas antes de ler os nomes nos letreiros. Divirto-me com o exercício. Miró, como Picasso e poucos mais, tornaram mais estimulante abdicar da minha habitual postura preguiçosa face à arte. Encontro um candidato a ocupar um lugar na minha futura casa. É descrito como “Dona e Orcell” (Mulher e pássaro) mas a minha interpretação é outra e foi a que me atraíu inicialmente.
O dia ainda está longe de terminar, mas o cansaço e a chuva levam-me em direcção à Plaça de Catalunya. Vou evitar algumas compras para a FNAC ou para o El Corte Inglés. Antes disso resolvo entrar num posto turístico subterrâneo para procurar um mapa de estradas dos arredores de Barcelona. A moça diz-me que só tem da Costa Brava, talvez na FNAC, mas que deve estar fechada. Pergunto no meu melhor catalão «Closed, why? It’s Thursday!». «Bank Holiday», responde-me sem aviso prévio. Já me cruzei com estes famosos dias em Londres e Buenos Aires, mas foi em datas próximas de fim de ano, sem surpresas. A meio de Outubro só mesmo em Espanha… perdão, na Catalunha.
Vencido pela realidade e com as pernas muito doridas, desço a Av. Portal del Angel, onde passo ao lado de uma feira de artesanato, em direcção a um waffle coberto com leite condensado com que me cruzei numa esquina em pelo Barri Gótic. É uma boa altura para descansar para o jantar.
Ao chegar ao hostal recordo-me vagamente de no dia em que cheguei me terem dito que iria mudar de quarto não sei quando e não sei porquê. Esta memória só emerge forçada pelo aparato de roupa juvenil feminina espalhada em cima da cama. Podia ter sido pior. Mais uma descoberta logo a seguir: em espanha o penúltimo nome é que é importante, o que torna mais interessante a procura no registo, do número da minha nova habitacion. Por fim, uma cama igualmente confortável era tudo o que precisava para descansar antes da janta e do passeio nocturno. Sexta-feria 13 é só amanhã. Mal posso esperar.