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A minha cidade está cheia de buracos

Fevereiro 24, 2007

Um destes dias dei por mim no meu carro, não a ouvir a música da rádio nem a pensar qual o caminho que me levou ao ponto onde estava naquele momento, mas a pensar na grande metrópole sul americana de São Paulo. Há muita gente que diz que não gosta de São Paulo. Não é uma cidade fácil, concedo. Há mesmo quem diga que é uma cidade perigosa. As histórias na primeira pessoa que lá ouvi dão que pensar. Há quem diga que é uma cidade caótica. Sim, sendo uma das 5 maiores aglomerações humanas do planeta, não é difícil que assim seja. Há mesmo quem diga tudo isto e ainda muito mais e pior mesmo sem nunca ter estado no continente em que se situa. O que se há-de fazer? Vivemos num país em que muitos conhecem o Brasil pelo que os telejornais apresentam e os outros, por terem comprado um pacote de férias de 7 dias a preço de saldo para o nordeste.

Mas este não é um post sobre o Brasil nem sobre São Paulo, onde já fui muito feliz durante algum tempo. É sobre a minha cidade, sobre Lisboa, onde moro há mais de 20 anos e que sinto como o único lugar do mundo de que alguma vez poderei dizer, sentindo, “sou daqui“. Ao contrário da percepção comum, que tende a eleger alguns dos aspectos que mencionei acima como os mais negativos de São Paulo ou do Brasil como um todo, aquilo que verdadeiramente não gostei na cidade durante o tempo que lá morei foram os buracos nas ruas. Em todas as ruas. Era, curiosamente, uma coisa que me fazia sentir saudades da minha cidade com maior intensidade.

Mas analisando as coisas friamente, trata-se de uma cidade onde habitam mais de 10 milhões de habitantes, ou seja, toda a população portuguesa, que é responsável por quase metade da produção de riqueza do país, onde circula muito trânsito pesado de mercadorias e ainda mais trânsito ligeiro. Se verificarmos o estado das estradas, como um todo, em Portugal, não ficaremos a ganhar por muito. Apesar das auto-estradas para o norte e para o Algarve, que servem de medida aos que pensam que o país fora de Lisboa é mesmo só isso, a verdade é que as estradas do nosso interior são, genericamente, de fraca qualidade e deficitárias de manutenção.

Mas Lisboa não, Lisboa não era assim. Não nos gloriosos anos 1990, quando foram feitos grandes investimentos na repavimentação das ruas e no embelezamento da cidade. Em Lisboa conseguia-se andar quilómetros a fio sem correr o risco de partir uma roda, rasgar completamente um pneu ou bater com o fundo do carro na estrada. Agora voltou tudo ao que era ou talvez pior, de tal forma que já não me dá prazer nenhum sair de carro à noite para ir, simplesmente, dar uma volta pela cidade. Agora, quando saio de carro pelas ruas da minha cidade, lembro-me de outra cidade e daquilo que menos gostava nela: os seus políticos e os seus buracos, passe a redundância.

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